Quatro da tarde, subo a Felipe, tenho algum tempo para um café da tarde a moda antiga, tipo anos cinquenta ou sessenta. Dobro na Henrique Dias e paro na frente do Shil. Não, o café não será na Sinagoga. Vai ser na Barcelona, claro, em frente, número 94. Me rendo mais uma vez ao espaço que José Ayete, formado na Escola La Confiteria Española, abriu em 1979.
Decoração de elegância básica, doces e salgados sem conservantes, amor, alma e tradição espanholas nos ingredientes, nas receitas e no ar, são alguns ingredientes para, algumas dezenas de minutos após esquecer do tempo da agenda pesada e das confusões da capital e dos meus interiores. Começo a me acalmar, escrever umas coisas e observar as moças, senhoras e até alguns rapazes e senhores como eu que estão flanando por lá.
Idisch mommes em trajes de discreta elegância falam delas, dos filhos, dos genros, noras e netos. Dos maridos não falam.”A namorada do meu filho foi para Israel. Minha filha dá instruções para a aeromoça quando eu viajo.A Rita está morando em Canela. Minha filha e meu genro trocaram de apartamento. A Rosa agora é minha vizinha. O Davi está trabalhando muito, cheio de pacientes”. Fico ali ouvindo as conversas, mas não me meto, nem dou os nomes agora, pois meu lado Iachne Press meio que sesteia nesta hora da tarde. Com um “pouquinho” só de fome, peço uma Granada, refri de 350ml, uma fatia de torta fria, três salgados e uma fatia de torta Chajá . Para completar, que não sou de ferro, três nostálgicas mil-folhas.
Dá, dá para ser muito feliz e esquecer a dieta, mesmo porque tenho a companhia solidária da gorducha-fofinha da mesa ao lado que, como eu, abandonou a culpa na calçada da Fernandes Vieira. De mais a mais, o refri é light e o atendimento da Daniele é simpático como o preço razoável do meu “café da tarde”. E e aí nossa culpa ficou barata, bem baratinha. O lanche me fez viajar até aqueles dias em que o pão quente e os frios da esquina eram do Panifício Zoratto. Hoje o pãozinho e outras delícias são do não menos simpático Supermercado Zaffari. Pois é, tomara que esses gringos continuem a fornecer comidinhas boas por preços bons, em todas as partes da cidade e, principalmente, no nosso querido Bom Fim.
Nós merecemos. Podem seguir nos pegando pela boca, mas com preços docinhos, tá?.
Saio da Barcelona melhor do que quando entrei e fico pensando que o Mario Quintana tem razão, sempre tem, quando disse que o tempo é só um ponto de vista dos relógios.


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